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O kit do peregrino: o que levar para o Caminho de Santiago

REBECA CORDOBÉS

VEN A GALICIA

CATUXA PRIETO

Com o olhar posto na primavera, os especialistas dão conselhos sobre a roupa, a mochila e os preparativos

09 may 2022 . Actualizado a las 17:45 h.

Vai fazer Caminho de Santiago esta primavera? A afluência observada na Páscoa, o fim das grandes restrições e a celebração do Jacobeu deixam prever marés de peregrinos a inundar cada uma das rotas jacobeias. Com a catedral em mente, a mochila às costas e as botas calçadas, quem parte à procura de vieiras amarelas deve se preparar. Mas, o que é preciso levar? Os especialistas dão os seus conselhos sobre a roupa, a bagagem e os preparativos. Este é o kit do peregrino.

O calçado: o básico

«É básico escolher bem o calçado», diz Dani Keral que, além de blogger de viagens e peregrino experiente, trabalha como fisioterapeuta em Santiago. «Embora seja primavera, deve ser impermeável porque a Páscoa na Galiza é chuvosa», esclarece. O mais recomendável é optar por calçado de caminhadas, quer sejam botas, sapatilhas ou sandálias. E, pequeno pormenor importante, nunca se deve estriar calçado no Caminho.

Na Pilgrim, uma agência de viagens especializada no Caminho de Santiago, recomendam as sapatilhas de trekking para a primavera, visto que pesam menos e suportam as chuvas desta época. No entanto, se a previsão meteorológica for mais parecida com a do outono, é possível optar por botas. Dani Keral sublinha que nesse caso, o mais aconselhável é que sejam de cano médio ou baixo para não passar demasiado calor. Quanto às características técnicas, no guia online para peregrinos da Gronze, especificam que devem ser «leves e resistentes, não demasiado rígidas, em tecido respirável» e, sobretudo, confortáveis.

Umas botas de peregrino abandonadas na Praza do Obradoiro.
XOÁN A. SOLER

Outro ponto a ter em conta para cuidar dos pés e evitar as temidas bolhas, são as meias. «O mais aconselhável é usar meias de trekking, do tamanho adequado», explica Dani Keral. Na Pilgrim, recomendam que sejam sem costuras e «levar uns chinelos, visto que, para além de não pesarem muito, ajudam para os pés descansarem das botas». No caso de querer aproveitar o fim das etapas para fazer um pouco de turismo, também se pode acrescentar umas sapatilhas leves que, além disso, serão uma grande ajuda no caso de o calçado se ter molhado. Neste caso, uma dica para secar as botas é enchê-las de papel de jornal enrugado, contam na Gronze.

A roupa: o outfit de primavera

Como acontece com o calçado, a roupa deve ser adaptada «à estação na qual se vai fazer o Caminho», indicam na Pilgrim. No entanto, há uma série de elementos básicos a levar sempre, esclarecem. «A roupa mais confortável é a de trekking», acrescenta Dani Keral. Em qualquer dos casos, o sistema mais adequado para não passar frio nem calor é vestir-se por camadas. Assim, o ideal para esta época do ano seria uma T-shirt respirável, uma sweatshirt para poder usar conforme as necessidades, com ou sem forro polar e uma capa impermeável.

Para os dias de frio, é possível optar por uma T-shirt térmica e acrescentar um casaco de fibra, «que dá calor enquanto se caminha», explica o fisioterapeuta. Na Pilgrim também optariam por um casaco leve: «tenha em conta que não vai enfrentar temperaturas extremas, e vai carregar com ele no momento do dia em que tenha calor». Ao ser primavera, o famoso corta-vento não é necessário em rotas que não passam por zonas de costa. Levá-lo ou não depende do friorenta que seja a pessoa e dos imprevistos da meteorologia que, sendo sinceros, nos vai dar uma Páscoa que não seguirá a lógica das estações.

O que, pelo contrário, é imprescindível em qualquer época do ano é a capa impermeável «para o corpo e para a mochila», indica Keral. «Leve um poncho de manga comprida para se proteger da chuva, visto que é uma peça indispensável. É algo rápido de colocar, cobre até a mochila atrás e é leve», recomendam na Pilgrim. Uma alternativa ao poncho, que tem o inconveniente de não cobrir a parte inferior das pernas, «é levar um casaco e calças impermeáveis, e um protetor impermeável para a mochila», dizem na Gronze.

Quanto à parte de abaixo, Dani Keral recomenda calças de trekking desmontáveis para adequá-las à temperatura. Também são adequadas as leggins, que podem ser alternadas com calções se estiver demasiado calor.


Um peregrino caminha na chuva com calças impermeáveis, capa de chuva e capa de mochila.
PACO RODRÍGUEZ

Além disso, é fundamental levar boné, chapéu ou um lenço, assim como utilizar protetor solar. «Lembre-se que vai estar exposto 6 ou 7 horas por dia», comenta o fisioterapeuta. Na Pilgrim acrescentam também óculos de sol. Sobre o gorro, a gola ou as luvas, não deveriam ser necessários, mas os especialistas aconselham ver as previsões meteorológicas antes de sair. Em qualquer dos casos, é sempre possível comprá-los em qualquer uma das aldeias pelas quais o Caminho passa.

A mochila: esqueça os «se por acaso»

Mais importante do que a escolha da roupa é a da mochila. Dani Keral sabe muito sobre a questão e conhece os problemas de costas que decorrer de uma forma incorreta de a colocar. «O recomendável é fixá-la bem à zona pélvica para evitar carregar o peso sobre os ombros», explica. Quanto ao tamanho, tanto o compostelano como a Pilgrim e a Gronze são claros: é preciso evitar que sejam demasiado grandes. A capacidade aconselhada vai dos 35 aos 40 litros, com um máximo de 50.

Além da forma da mochila, o fator chave é o peso. «Embora esteja a prever uma semana de viagem, tem de a encher como se fosse viajar três dias e ir fazendo ciclos de lavagem», explica. A maioria dos albergues já têm máquinas de lavar e até de secar roupa. Ao reservar, é algo a ter em conta. Em qualquer dos casos, hoje em dia há lavandarias em quase todas as localidades.

O peso da mochila não deveria ultrapassar 10% do peso corporal, explicam na Gronze. No entanto, isto pode ser um problema para as pessoas que pesam pouco. Se pesar 50 quilos só pode levar uma carga de 5 quilos? «Não é preciso ser tão rígido, é uma referência», explica Dani Keral. Embora se possa ultrapassar um pouco o limite se for inevitável, recomenda limitar-se ao básico. «É preciso prescindir dos se por acaso», afirma.


Um peregrino com uma mochila nas costas em Santiago.
XOAN A. SOLER

Então, o que levar? «As coisas que é preciso levar na mochila para o Caminho de Santiago variam ligeiramente dependendo sobretudo de um fator: a época do ano», indicam na Pilgrim. «Além daquilo que leva vestido, pode levar mais umas calças, um poncho impermeável ou uma capa de chuva leve para usar se chover, 2 ou 3 T-shirts desportivas, uma camisola, mudas de roupa interior e de meias sem costuras».

Além de roupa, deve sobrar espaço para uma toalha, melhor se for de microfibra, e chinelos, visto que são necessários para tomar duche nos albergues. Aos produtos de higiene é preciso acrescentar um protetor solar. Em todo o caso, se carregar com a bagagem for um problema, pode sempre pedir algum dos serviços de transporte de mochilas, como o que propõem nos Correios. Nesse caso, basta levar uma mais pequena com o básico para cada etapa.

Estojo de primeiros socorros, água e vaselina: os imprescindíveis

Mas, que material é básico? Um dos imprescindíveis é a vaselina para os pés, que devem ser untados cada manhã antes de colocar as meias para evitar a formação de bolhas. «As pessoas que transpiram muito devem repetir isto várias vezes ao longo da etapa», acrescenta Keral.

Também se deve levar um estojo de primeiros socorros com o básico. «Um kit antibolhas e analgésicos», resume Keral. No caso de se formarem bolhas, será necessário ter à mão uma agulha hipodérmica para as furar, um antissético (como o álcool) para desinfetar e, se for preciso, um adesivo largo para tapar a ferida. «Não estou nada a favor de deixar um fio para a bolha ir drenando», indica o fisioterapeuta, considera-se que se a lesão impedir caminhar, será melhor deixar um dia de descanso e continuar depois. A estes básicos é possível juntar pensos, gases e esparadrapo. Se for preciso mais alguma coisa, em todas as etapas há farmácias onde comprar.


É aconselhável usar sandálias para descansar os pés e algumas frutas para comer durante a etapa.
Sandra Alonso

Obviamente, a água não pode faltar. «Una cantil de litro e meio ou dois é o ideal porque se pode ir enchendo. Menos quantidade é pouco, visto que nos devemos manter bem hidratados, e mais seria um peso excessivo», indica a Keral. Além disso, é aconselhável levar algo de comida que ocupe pouco e forneça energia. «E entre os seus imprescindíveis, leve consigo um saco a mais para ir colocando o seu lixo e qualquer desperdício!», acrescentam na Pilgrim.

Acessórios: Devo levar bastão? E saco de cama?

Uma vez que a mochila estiver carregada com o imprescindível, poderá acrescentar algum acessório adicional. Na Gronze dão ideias como uma lanterna, uma navalha ou uma bateria externa para o telemóvel.

Sobre a necessidade de levar saco de cama, na Pilgrim esclarecem que «em muitos alojamentos fornecem lençóis». Para evitar carregar com ele, basta planificar onde se vai dormir cada noite. Seja como for, se optar por levar, quer para se proteger do fio quer pelo tipo de alojamento, é melhor optar por um «ultraleve e ultracompacto», explicam na Gronze.


Os albergues públicos têm roupas de cama descartáveis.
JOSE PARDO

Outra das dúvidas que um peregrino tem é se é preciso levar bastões. «Ajudam no equilíbrio e a repartir o peso», indicam na Pilgrim, mas «não são necessários», diz Dani Keral. «São úteis em casos concretos, como para as pessoas que têm lesões de joelho. É uma articulação que sofre muito nas descidas», esclarece.

A chave está na preparação

O tema dos problemas físicos é outro dos fatores a ter em conta antes de pôr pés ao caminho. «O Caminho de Santiago costuma assinalar lesões que não sabíamos que tínhamos», explica o fisioterapeuta. Por isso, as pessoas que não estão habituadas a fazer exercício devem se preparar com duas semanas de antecedência «para conhecer a sua condição física e para habituar o corpo».

A preparação é chave para evitar problemas físicos que impeçam acabar o Caminho, garante. O ideal é ir aumentando as distâncias e acrescentar caminhadas com subidas. No caso das pessoas de idade, este passo é fundamental, visto que podem ter mais problemas em caso de esforço excessivo. No caso das crianças, admite que não se cansam rápido, mas também não controlam as suas forças, razão pela qual convém vigiar que não queimem toda a energia no princípio da etapa.

Outro dos conselhos que dão os especialistas é deixar um dia de margem se for preciso recuperar de alguma lesão. É de relembrar que, embora o objetivo seja chegar a Santiago, forçar-se demasiado pode levar a abandonar. Por isso, apesar da necessidade de uma planificação mínima, cada persona pode seguir o seu próprio ritmo. «Há poucas sensações mais agradáveis do que deixar que sejam o próprio Caminho e as nossas circunstâncias a marcarem os factos e o ritmo», pensam na Gronze. Por isso, o conselho no qual coincidem todos os peregrinos é procurar desfrutar da experiência. Bom Caminho!